ENTREVISTA COM O JUIZ FEDERAL FREDERICO PEREIRA MARTINS “A EXPERIÊNCIA DE SER JUIZ NO OIAPOQUE/AP, EXTREMO DO BRASIL”

IBRAJUS:  Qual é a sua cidade natal?  Onde, quando e com quantos anos o senhor se graduou em Direito?  O que o Influenciou na escolha do curso?

Sou natural de Resende, uma cidade situada às margens do rio mais importante do Estado do Rio de Janeiro, o rio Paraíba do Sul. A distância até a Capital é de 180 Km. La vivi apenas a minha primeira infância, até os 6 anos de idade, quando meu pai, hoje aposentado de Furnas Centrais Elétricas, foi transferido para o Rio de Janeiro. Lá, então, vivi e conduzi meus estudos – quase que na totalidade em escolas públicas – até ingressar no curso de Direito da UFRJ, historicamente conhecida como Faculdade Nacional de Direito. Após duas grandes greves nas universidades federais, obtive o sonhado diploma em novembro de 2004. Acredito que a escolha do curso de Direito decorreu da minha afinidade com as disciplinas ligadas a área de humanas, sobretudo os temas ligados a história do Brasil. A escolha foi genuína. Não tenho na família nenhum advogado, juiz ou promotor.

 

IBRAJUS:  Quais foram as suas experiências iniciais na área do Direito? Fez estágios? Advogou? Como e quando veio a ideia de ser Juiz Federal?

Minhas experiências iniciais foram em um estágio voluntário na Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, quando ainda me encontrava no 4º semestre da Faculdade. Após algum tempo fui aprovado em um exame seletivo para estagiar na área jurídica do Banco do Brasil, onde permaneci por 2 anos. Foi uma vivência muito boa, porque atuei no setor trabalhista e havia muita demanda em face do Banco, especialmente as relacionadas a Súmula 331 do TST. Com isso, os advogados me confiavam não apenas a parte “escraviaria” (rs) do estágio, mas também a confecção de minutas importantes, de maneira que tive como desenvolver sensivelmente minha redação jurídica. Com o diploma na mão, estudei com bastante foco nas provas anteriores da OAB e logo no 1º exame que surgiu consegui a carteira da Ordem. Advoguei, contudo, por pouco tempo. Primeiramente dividindo uma ou outra demanda trabalhista. Depois passei a atuar como advogado contratado de um pequeno escritório, cujo acervo era voltado a demandas cíveis em geral. Realizei, então, minhas primeiras audiências, elaborei peças mais complexas e gerenciava a administração do escritório muitas vezes. O período de 1 ano nessa experiência foi suficiente para me dar a certeza de que minha maior afinidade era, de fato, analisar, cuidar das novas teses e impulsionar intelectualmente os processos, bem como ter contato com a equipe. Não era e nunca fui um bom vendedor, sendo que a necessidade constante de captação e manutenção dos clientes do escritório era a parte com a qual menos me afinava. Daí em diante surgiu a ideia definitiva de me tornar um servidor público e, como ainda me achava pouco preparado para ser aprovado em concursos de grande porte como o da magistratura federal, fiquei focado em provas para analista e técnico de Tribunais. Pedi as contas do escritório e, então, para não ficar sem nenhuma renda, arrumei um trabalho de advogado consultor, como freelancer de uma grande imobiliária que na época tinha acabado de aportar no Rio de Janeiro, vindo de São Paulo. Trabalhava todos os finais de semana em stands de venda de imóveis, auxiliando os corretores nos fechamentos dos contratos imobiliários. Entre um cliente e outro que visitava o apartamento decorado, seguia firme no estudo do meu material para os concursos públicos. E durante a semana, mantinha-me em foco total para os estudos. Após 1 ano e meio havia conseguido, assim, a aprovação e nomeação para os cargos de analista judiciário do TJRJ, TRT-1ª Região e TRF-3ª Região. Esse último era o meu maior objetivo (já que não havia conseguido passar para analista do TRF-2ª Região, no Rio de Janeiro) e decidi partir para São Paulo, onde trabalhei quase 7 anos como analista judiciário, sempre na assessoria de diversos juízes federais, aos quais sou muito grato pelo aprendizado e pela inspiração para que eu decidisse seguir o rumo da magistratura federal.

 

IBRAJUS: Quando se deu o seu ingresso na magistratura? Quantos candidatos se inscreveram e quantos foram aprovados? Em que local iniciou suas atividades? Houve uma temporada de aprendizado junto a outro juiz? Algum curso de preparação?

O meu ingresso na magistratura federal ocorreu em 29/01/2015, após 3 anos de dedicados estudos. Eu já estava como analista do TRF-3ª Região há 3 anos e, então, na virada de 2011 para 2012, consegui adquirir tempo e maturidade para embarcar nessa nova travessia de estudos, focando-me completamente nas provas da magistratura federal. Fui aprovado no XV Concurso do TRF-1ª Região, realizando a minha prova oral em 17/11/2014. A seleção contou com mais de 7 mil inscritos e restaram aprovados apenas 56. Obtive a 3ª colocação na fase provas, mas como não tinha muitos pontos na fase de títulos, terminei em 8º lugar na classificação final. Iniciei minhas atividades como juiz federal substituto em Cuiabá, na 09ª Vara da Seção Judiciária de Mato Grosso, com competência JEF. Tive a sorte de contar com a divisão de trabalho com um grande juiz federal e, hoje, amigo, Wagner Mota Alves de Souza, que era o titular da Vara. Lá fiquei durante 1 ano e meio e, após um trabalho conjunto, conseguimos conquistar o selo diamante na 09ª Vara da SJMT. Antes dessa primeira lotação, houve, sim, um tempo de preparação, em um curso de formação realizado nas dependências da ESMAF-TRF1 em Brasília, durante 4 meses. Desses, passamos 2 meses participando de palestras e aprendizados teóricos. Os outros dois meses fizemos uma espécie de “estágio” em Varas da SJDF e da SJGO, atuando como juízes auxiliares, julgando e assinado decisões normalmente, mas com instruções pontuais dos colegas titulares das respectivas lotações.

 

IBRAJUS:  Como e quando se deu a sua ida para o Oiapoque, sabidamente um lugar distante e não muito procurado?

Minha ida para Oiapoque, no extremo norte do Estado do Amapá, ocorreu na minha promoção na carreira, quando me tornei juiz federal titular. Já tinha definido que gostaria de seguir carreira no TRF-1ª Região e havia tentado a titularização para Tabatinga/AM e Porto Velho/RO, mas bati na trave e colegas mais antigos titularizaram de última hora. Provavelmente Oiapoque estava em meu destino, realmente, e não houve concorrência para a vaga de juiz federal titular naquela fronteira. As vagas então abertas para a titularização eram Oiapoque e Laranjal do Jari, ambas no interior do Estado do Amapá (aliás, as únicas Subseções da Seção Judiciária do Amapá, com sede em Macapá). Apenas eu e minha colega de turma, Sandra Maria Correia da Silva, topamos o desafio. Não houve briga na escolha das vagas (rs). Apesar da minha preferência na antiguidade, escolhi Oiapoque e Sandra escolheu Laranjal. Cada uma com suas peculiaridades e aventuras. Tive preferência por Oiapoque por conta da fronteira com a Guiana Francesa, ou melhor, com a França, já que, efetivamente, trata-se de uma unidade federativa da França encravada na Floresta Amazônica. Havia feito pesquisas e contou muito a logística de transporte por avião, por meio do aeroporto de Caiena (Cayenne), capital da Guiana Francesa, que dista apenas 180 Km de Oiapoque, em uma boa e pavimentada estrada. Pelo lado brasileiro, o deslocamento é muito difícil, pois a BR 156 – que liga Oiapoque a Macapá – exige dos que por lá transitam o enfretamento de um trecho rodoviário bastante perigoso, de 120 Km de terra, com muitos atoleiros e algumas inundações (são 32 pontes de madeira nesse trecho) no período do inverno amazônico (de dezembro a junho). Além disso, a jurisdição de Oiapoque compreende 2 grandes parques nacionais, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e o Parque Nacional do Cabo Orange. Também conta diversas Terras Indígenas demarcadas e com presença marcante da cultura indígena na região. Essas características motivaram-me bastante a escolher Oiapoque. A possibilidade de ter experiência na carreira em temas sensíveis como esses foi a pedra de toque da minha escolha em titularizar e seguir carreira.

 

IBRAJUS:   Como era a sua rotina no Oiapoque? Qual a distância de Macapá, a capital do Estado do Amapá? Quais os meios de transporte? Foi fácil conseguir moradia? O senhor viveu situações de dificuldades?

Hoje já removido para a Subseção Judiciária de Juína, no Mato Grosso, costumo dizer que em algumas lotações da magistratura federal da 1ª Região um juiz não ganha uma vida nova, mas sim uma missão nova. A percepção é meio militar mesmo. Missão dada é missão cumprida, como se dizia no famoso filme brasileiro. Em Juína, hoje, tenho uma vida social normal, com uma cidade que atende às exigências comuns de uma família. Em Oiapoque, não havia muito essa dinâmica social. Os encontros com amigos ocorriam apenas junto aos servidores da Subseção, com a qual formei laços fraternos e comprometidos com o nosso propósito de “resgatar” a jurisdição de Oiapoque de um certo abandono. A rotina se baseava tão somente no meu trajeto diário entre a Vila Militar (onde eu morava) e a Subseção Judiciária, que fica as uns 7 Km de distância, por uma estrada não asfaltada e, também, com ponte de madeira. Uma estrada bem isolada, ladeada por altas copas das mais variadas árvores tropicais. Tinha o cuidado de não voltar a noite por esse trecho, mas muitas vezes a motivação de vencer os processos, que há muito se prolongavam no acervo da Vara, fazia-me esquecer das cautelas pessoais. Passava a noite mesmo, muitas vezes sozinho. Não há meio transporte coletivo na cidade. Há muitos mototaxistas e alguns carros de taxi (não há uber, ainda, rs). Meus deslocamentos se davam sempre por meio da viatura da Justiça Federal, uma L200 já desgastada pelos seus quase 8 anos de uso e, sobretudo, pela buraqueira constante nas ruas da cidade (aquelas que são asfaltadas), mas que se fazia suficiente para seu fim. No início, andava sempre com o nosso prestativo técnico de segurança e transporte, Isackson, mas com o tempo fui me sentindo mais à vontade na região e, então, passei a dirigir pessoalmente a viatura. Era quase um rally diário, porque, como disse, o trecho quase que inteiro era não pavimentado. Estabeleci moradia, inicialmente, no Hotel de Trânsito do Exército, na Vila Militar do 34º BIS – Batalhão de Infantaria de Selva. Após um tempo, ofereceram-me uma casa que estava vaga, destinada originalmente aos oficiais da Companhia. A casa estava abandonada há anos, caindo aos pedaços. De acordo com a proposta, o investimento em materiais para a casa seria meu e o pelotão de engenharia do Exército se encarregaria da reforma. Aceitei. É muito difícil ou quase impossível conseguir uma casa razoável fora da Vila e, além disso, sentia-me mais seguro residindo dentro de uma instituição militar. Afora isso, minha perspectiva era de ficar 2 anos em Oiapoque, já que a carreira estava fechada, sem vagas para remoção. Então conclui que uma boa casa me daria um refúgio e um descanso para passar por um longo período por lá. Assim, após um considerável investimento na casa e 4 meses de reconstrução, mudei-me do quartinho do hotel de trânsito para a ampla casa, o PNR n. 05 (PNR – Próprio Nacional Residencial, essa é a nomenclatura militar), na beira do Rio Oiapoque. Linda vista! Contemplava o pôr do sol da janela da sala da casa, diariamente, quando não fazia minhas atividades físicas na academia do Exército, ou corria em torno da Vila. A maior dificuldade que encontrei foi relativa à internet e energia elétrica da cidade. A falta de comunicação era, igualmente, muito penosa, pois na Vila Militar não há nenhum sinal de telefone ou internet. O isolamento dos familiares era total. O trabalho na Subseção também, constantemente, ficava prejudicado. Após algum tempo, consegui providenciar o conserto do gerador de energia elétrica da Subseção, que estava quebrado e desligado há mais de 1 ano antes da minha chegada. Antes disse, houve dias em que sentenciava à caneta e quase que no escuro, sem luz no prédio, para depois, com o retorno da energia, passar para o sistema. Mas, nesses momentos, a vontade de superação falava mais alto, graças a Deus. Pensava muito na equipe também, já que muitos servidores já estavam em Oiapoque há quase 3 anos, em situações muito difíceis de moradia e, da mesma forma, longe de familiares. Tinha que dar o exemplo, portanto, e nunca esmoreci.

 

IBRAJUS:   Estando Oiapoque na fronteira com a Guiana Francesa, como se davam as relações com a Justiça desse país? O senhor teve dificuldades nas relações com os colegas franceses?  Havia cooperação?

A relação entre Brasil e França é bastante profícua naquela região. Pra mim, aliás, era motivo de tranquilidade saber que bastaria atravessar o Rio Oiapoque para encontramos apoio, se fosse necessário, junto às autoridades francesas. Não tive nenhuma dificuldade com as autoridades francesas, sobretudo com relação à Gendarmerie Nationale (espécie de polícia militar nacional francesa) e PAF – Police Aux Frontières (espécie de polícia federal francesa, especifica para fronteiras), que me davam apoio institucional na passagem pela Ponte Binacional e pela estrada até Cayenne. No exercício jurisdicional, relativamente aos processos criminais, não era tão frequente o contato internacional – pois o acervo da Vara é muito pequeno – mas por vezes víamos nas demandas sob nosso Juízo réus brasileiros e franceses, os quais residiam na Guiana Francesa. Quando havia necessidade de realização de atos processuais em território francês, a regra, contudo, era usar o demorado procedimento de expedição de cartas rogatórias (apesar de haver um acordo específico de cooperação judicial entre Brasil e França, o Decreto n. 3.324/99, o art. 14 desse diploma internacional ainda exige o uso de cartas rogatórias), o qual, pelo que pude observar em dois casos, chegava perto de 1 ano para se efetivar e retornar ao Brasil, sempre por meio do Ministério das Relações Exteriores. Em uma oportunidade, contudo, percebendo que não havia necessidade de intimação pessoal, fiz uso do chamado CCP – Centro de Cooperação Policial, criado pelo Decreto n. 8.344/2014. Escorando-me no princípio de origem francesa pás de nullité sans grief, determinei a busca de informações cadastrais junto ao CCP de uma brasileira que necessitava ser intimada para seu interrogatório. Ela já contava com advogado dativo em Oiapoque, intimado pessoalmente. Mas entendi por bem buscar sua intimação direta também. Com isso, o CCP diligenciou os dados de telefone celular da ré e fizemos uma intimação via whatsapp, e via telefone, para confirmar. Afora isso, no plano normativo, em verdade, há um verdadeiro marco jurídico de relações bilaterais entre Brasil e França, especificamente voltadas para a extensa faixa de fronteira – de quase 700 Km – que liga nossa nação àquele território francês, fazendo nossa ligação direta, assim, com a União Europeia (ao menos, geograficamente). Existem 5 tratados específicos para essa região: um tratado de assistência em matéria penal (Decreto 3.324/1999); um para fins de extradição (Decreto 5.852/2004); um para cooperação relacionada à segurança pública (Decreto 6.718/2008); um para a cooperação policial fronteiriça para a criação de um Centro de Cooperação Policial (Decreto 8.344/2014) e, por fim, o mais importante na minha opinião, um tratado de cooperação para prevenção e repressão à mineração ilegal de ouro (Decreto 8.337/2014), muitas vezes invocado em minhas decisões processuais penais (o maior acervo da Vara, hoje, é de medidas cautelares penais relacionadas ao combate da extração ilegal de ouro na região).

 

IBRAJUS: Qual o tipo de ações penais e civis predominantes no Oiapoque?  Quais foram as maiores dificuldades no exercício da função? O sentir chegou a temer por sua segurança pessoal?  Como era tratado pela comunidade local?

A peculiaridade principal de Oiapoque, em termos de comparação de unidades jurisdicionais do país, é o baixíssimo acervo de processos em tramitação. Até o fim do ano passado, somados o acervo do JEF Adjunto e o da Vara, não passávamos muito de 600 processos (aproximadamente 200 JEF e 400 Vara, dos quais, em torno de 150 execuções, 100 criminais e 150 cíveis). Pela presença bastante marcante do Estado em Oiapoque nos últimos 8 anos, sobretudo pela presença de uma Delegacia da Polícia Federal em Oiapoque e, ainda, uma unidade operacional da Polícia Rodoviária Federal, bem como o Exército Brasileiro, a sensação na cidade é de segurança. Todavia, pude perceber que os feitos criminais e o combate à criminalidade relacionada à extração ilegal de ouro cresceram vertiginosamente no último ano, em especial após a deflagração de duas grandes operações (Crisol e Minamata, sendo uma em fevereiro e a outra em novembro, ambas do ano passado). Nesse ponto, a maior dificuldade foi a tramitação de processos sigilosos entre a Subseção e o MPF, o qual, apesar de contar com uma Procuradoria da República em Oiapoque, não instalou fisicamente o ofício na cidade, permanecendo sediada em Macapá. Houve, inclusive, pouco antes da minha chegada, o extravio de desses processos sigilosos, relativo a importante inquérito policial, após suspeitamente (ao menos na época) uma Kombi dos Correios ter sido incendiada em plena BR 156. A par dessas notícias, sugeri junto ao MPF, então capitaneada pela prestimosa atuação do Procurador da República Antônio Augusto Diniz, que firmássemos um termo de parceria, a fim de proceder à carga eletrônica dos autos, dando-se vista ao Parquet Federal sempre por meio de envio dos autos digitalizados, por email institucional. Deu certo. A tramitação foi acelerada sensivelmente e não temíamos mais o sumiço de algum processo. Quanto à segurança pessoal, não sofri ameaças concretas, mas era sensível o clima de desconforto gerado pelas crescentes atuações da Polícia Federal na região, desencadeadas pelas medidas cautelares deflagradas no âmbito daquelas operações policiais. Em uma dessas, solicitei escolta e apoio logístico da Polícia Federal e por duas semanas tive a presença de 2 a 3 agentes para que fizéssemos o transporte em viatura descaracterizada da Vila Militar para a Subseção Judiciária, ida e volta. Boa parte da economia da cidade é gerada, até hoje, pela “receptação” de ouro ilegal, com muitas lojas de compra de ouro espalhadas pela cidade, várias delas muito próximas da Justiça Federal. Era recomendável o cuidado, portanto. Houve, recentemente, também, uma manifestação popular diretamente contra a Justiça Federal, mais precisamente em virtude de uma sentença que proferi no fim do ano passado para extinguir um Distrito municipal que foi criado ilicitamente no meio do Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque. Dessa forma, por conta da diminuta dimensão urbana da cidade e, ainda, por conta de julgamentos delicados como esses que mencionei, meu contato era pequeno com a comunidade local e ocorria pontualmente, tal como se deu em uma entrega, a uma creche, de alimentos arrecadados no ato de inscrição de nosso concurso de estágio e, em outra oportunidade, em uma palestra que proferi para os estudantes de Direito da UNIFAP – Universidade Federal do Amapá.

 

IBRAJUS: Qual o papel do Exército Nacional na região? Como era o relacionamento com os colegas da Justiça do Estado do Amapá?

O papel do Exército na região é de fundamental importância. Apesar de contar com um efetivo pequeno – são apenas 120 homens, divididos em 4 pelotões – a Companhia Especial de Fronteira, vinculada ao 34º BIS, cuja sede fica em Macapá, exerce não apenas uma influencia na manutenção da ordem pública da fronteira, como também na ordem social e econômica, uma vez que o recrutamento anual desperta o interesse de muitos jovens ao alistamento militar. Há, em média, 4 grandes operações militares na região, sendo que as mais importantes são as operações Curare e Agatha. Recentemente, tive ciência, contudo, de que essas grandes operações seriam substituídas por operações menores e mais difusas ao longo do ano, o que considero muito benéfico para a manutenção da fiscalização fluvial do Rio Oiapoque. Em uma dessas operações, tive a oportunidade de promover a presença da Justiça Federal para a realização de uma inspeção judicial em uma comunidade chamada Vila Brasil, distante mais de 100 Km de Oiapoque, no sentido oeste do Rio Oiapoque. Quanto aos colegas da Justiça Federal, o contato, apesar de bom, não era muito frequente, em vista do isolamento da Subseção de Oiapoque. Já com a Juíza de Direito da Comarca de Oiapoque o contato era mais frequente, já que éramos vizinhos na Vila Militar.

 

IBRAJUS: Qual era a sua forma de lazer na cidade e região? Adaptou-se bem aos costumes locais? Houve casos pitorescos, engraçados? Qual o principal motivo de sua remoção? 

Não havia muito lazer na cidade de Oiapoque. Frequentava, as vezes, um famoso restaurante da cidade, situado às margens do Rio Oiapoque, chamado Chácara do Rona, com um belo deck de madeira e que servia um filhote (espécie de peixe muito procurado na região) muito bom! Também gostava de atravessar o Rio Oiapoque de catraia (são as voadeiras, lanchas de alumínio bem rápidas, que fazem a travessia dos moradores de um lado a outro), para ir até Saint George, a primeira cidadezinha da Guiana Francesa, logo na margem francesa. Como há uma isenção de tributação de gêneros alimentícios básicos para consumo próprio, eu gostava de atravessar munido de meu cartão pré-pago (travel card) com euros suficientes para comprar alguns bons e baratos vinhos franceses, a maioria de Bordeuax e em média de 5 a 10 euros. Queijo emmental e mostarda Dijon também não podiam faltar na lista de compras, rs. Fora isso, praticava exercícios todos os dias, ou na academia da Vila ou correndo em seu entorno. Em Oiapoque há, com certa frequência, casos pitorescos. Já tive que desviar de fios de alta tensão caídos na frente da Subseção, praticamente convencer vários sapos de que minha casa não era local de morada deles (um, inclusive, veio junto com a mudança até Juína, rs) e uma vez fiquei preso no meio da Ponte Binacional por umas duas horas (praticamente um apátrida, porque o lado brasileiro estava fechado e sem ninguém na “guarita do Brasil”). Com o nosso Diretor da Subseção também temos um caso bastante pitoresco, que retrata bem a calamidade da BR 156 no período chuvoso: ele teve que atravessar de canoa um trecho de quase 1 Km da rodovia, que tinha se transformado um pequeno rio, tudo isso para aliviar o peso da camionete e tentar fazer com que essa atravessasse a parte inundada. Acerca da minha remoção, não houve um motivo específico e principal. Todas as dificuldades e a distancia de Oiapoque foram assimiladas por mim, por meio da dedicação ao trabalho e da vontade sincera de ter uma experiência nova e enriquecedora pra carreira. Cheguei a pensar em não remover para alcançar todos os selos do CNJ. Penso que estávamos muito perto depois de 1 ano intenso de trabalho (poucos processos, mas muito delicados). A continuidade de obter uma ação transformadora na região, sobretudo no que toca à implementação de uma mineração sustentável, era um mote do qual não queria abrir mão. Entretanto, pelas circunstâncias atuais da carreira, que conta com pouca ou nenhuma vaga para juiz federal titular na 1ª Região (aliado à limitadíssima hipótese de remoção para lotações de outras regiões), conclui que era melhor aproveitar uma remoção para Juína, no Mato Grosso, Estado ao qual tenho uma ligação afetiva e onde comecei minha carreira como juiz federal substituto.

 

IBRAJUS:  O senhor gostaria de passar uma mensagem aos que desejam ser magistrados nas cidades mais distantes da região Norte do país?

Quando decidi promover na carreira, optei por um projeto de longo prazo. Imaginei que daqui a 10 anos eu não me sentiria confortável em ser, ainda, juiz federal substituto. Nada contra aos que assim optaram. Trata-se de uma escolha pessoal, apenas. Uma eleição de critérios íntimos, de cada um. Eu, particularmente, resolvi me enriquecer de experiências profissionais diversas, em jurisdições desafiadoras, para poder olhar pra trás no fim da carreira e, com isso, me sentir com a sensação de dever cumprido. Não há duvidas de que, hoje em dia, como dito, pelo fato da carreira estar fechada e com poucas perspectivas de remoções, essa escolha é quase que “assinar um cheque em branco”, ao portador, inclusive (rs). Para alguns isso pode ser desalentador. Pra mim, não. A imprevisibilidade também pode ser um fator de estímulo ao desenvolvimento, porque ela nos impulsiona a sairmos das nossas zonas de conforto e nos coloca em prova do que já aprendemos e de que modo podemos melhorar. Penso que somente assim podemos crescer, pessoal e profissionalmente. E em qualquer momento de desalento, quando não consigo enxergar muito o horizonte, gosto de lembrar muito de uma frase que, segundo atribuem, é oriunda da filosofia budista: “caminha e o caminho se abrirá”. Essa é a mensagem que gostaria de passar aos juízes de fronteira e de localidades tão ou mais difíceis que Oiapoque, por vezes. E, de um modo geral, para aqueles que têm dúvidas em titularizar na carreira, desejo coragem aos colegas, de seguirem o caminho que ressoa em seus corações.

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